9 de julho de 2011

Mais um corpo

Postado por NoName
   Era como se ele sentisse o sangue correndo por aquele corpo ali, adormecido a sua frente, sentia todos os pontos vitais pulsando, e imaginava  aquele sangue se esguichando no seu rosto. Ele entrava em um transi, um frenesi quando entra na veia com seu bisturi. Um item que vinha sendo companheiro constante dele na juventude  e agora em seu trabalho.
   Medicina não era a área que ele realmente queria ter como oficio, mas ele adorava sentir aquele metal gelado penetrando na carne, interrompendo o fluxo sanguíneo, abrindo mais um canal. No hospital onde trabalha, ele é o melhor naquilo que faz.
   -Só não gosto de ter de arrumar.-pensava ele toda vez que alguém o elogiava.
   Sua casa, algo de certa forma grande, dois andares com um porão, vivia vazia, mas estava sempre cheia de gente; tudo bem que eram pessoas escondidas, mas tinha do mesmo jeito, não? E já falando assim, o porão é o lugar mais movimentado, digo, parado mas cheio daquela casa. 
   -Você vai para o mesmo lugar em que os outros estão, se bem que, já estou ficando sem lugar, preciso aumentar esse porão de alguma forma.- comentou ele ao indigente que se encontrava deitado naquela mesa fria e imunda, onde varias pessoas já passaram.
   Notas, gritos, uma sinfonia se formava a cada corte que ele fazia. Aquilo o fazia ir ao delírio, uma satisfação   lhe vinha a cada nota criada. Pulsos, tórax, abdomens, virilha, calcanhar, todas as partes, vitais ou não acabavam por ser as teclas do piano, compondo assim a melodia do concerto. Só acabava assim que o liquido espesso que mantém a musica acabasse, muitas vezes acabava rápido, mas sempre eram mais de um piano, mas outros, os mais largos, demoravam mais e quase não precisava de outro instrumento para terminar de satisfaze-lo.
   A porta começa a bater, balançar, a ser chutada.
   -Me seguiram.-Pensou ele. 
   Ele já havia pensado nessa hipótese, que algum dia alguém acabasse o perseguindo e percebido que aqueles que entravam na casa, não saiam muitas das vezes. Ele só não tinha imaginado que acabaria preso, em pleno concerto, em seu porão, junto a todos aqueles corpos. Ele ainda segurava o bisturi, quando a porta abriu.
   -Mãos para ci....- foi tudo o que o policial conseguiu falar até que o machado, preso ao teto caísse e partisse ele em dois.
   O seu parceiro, que estava do lado de fora, não acreditou quando viu parte do corpo vindo para o seu lado e a outra parte tinha caído mais a frente. Paralizado pelo acontecimento, acabou sendo mais um corpo, mais um piano, ou uma tuba. Quanto ao nosso querido maestro, ele quando deu por si estava cercado, em volta de sua casa, outros 6 carros de policia além do daqueles dois que entraram primeiro. E bem, em meio a tantos corpos, nunca ninguém identificou quem era tal sujeito.

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